o papel e o computador – o manuscrito e a máquina

Damos alguns passos entre o que vemos no papel, no manuscrito, e o que transpomos para o computador, tentando em cada um deles fidelizar-nos com o que vemos no original para conseguirmos retratá-lo na máquina. Mais do que isso, tendo sempre em conta o papel, mas já só no computador, tentamos descrever e documentar o que vimos no original para garantir que sugerimos boas pistas de estudo, com a anotação necessária, para podermos passá-las a outros.

Há uma equipa que passa os seus dias no arquivo em pesquisa, procurando página a página o bem precioso que é a carta, transcrevendo-a de seguida com o editor de XML – lado a lado estão a mão que pegou na pena e a mão que transporta cada letra à máquina. Após o esforço de leitura pela completa edição e contextualização da carta, segue-se-lhes o pedido do facsímile: não damos nenhum passo em frente sem o original ou a sua representação. Outra parte da equipa revê, moderniza e traduz cada uma das cartas, fixando o texto para mais fácil pesquisa, e fá-lo a partir das duas fontes que lhe são disponibilizadas: o facsímile e a edição TEI-XML.

Depois desta fase, o documento final chega ao sítio: tem título, tem um resumo, autor e destinatário identificados, edição quási-paleográfica, modernização, tradução, palavras-chave (de História e Linguística), contextualização (interna e externa), facsímile disponível, lado a lado.

Isto são Humanidades Digitais, para mim.

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días de archivo

La vocación digital de este proyecto es una de sus señas de identidad; le otorga una visibilidad necesaria para los estudios de humanidades y, sin embargo lo que quiero reseñar aquí es la labor previa de archivo. Para los historiadores el archivo forma parte de la rutina investigadora y si bien es cierto que a veces la tarea queda sin recompensa, en ocasiones el documento nos atrapa y nos hace comprender por qué adoramos esta profesión. No soy la primera en evocar los sentimientos de alegría al encontrar la carta anhelada tras duros días de búsqueda, pero creo que es inevitable referirse a ese momento en que una parte del pasado se abre ante nosotros y nos fascina. Buscando entre los pleitos conservados en la sección Consejos del Archivo Histórico Nacional he encontrado documentos  de todo tipo: desde cartas de negocios hasta cartas de amor y todos ellos nos abren la puerta a unas vidas pasadas que nos permiten comprender de una manera más completa la sociedad del ayer.

De nuevo, hoy me encuentro en el archivo y ante mí se abre la posibilidad de encontrar una nueva carta que engorde el corpus de PS pero sobre todo, me encuentro ante la puerta que nos conecta con un pasado cuyo conocimiento siempre es necesario.

e amanhã…

O menu do dia já está em vista: mais uma deslocação ao Arquivo Nacional da Torre do Tombo, uns tantos processos da Inquisição de Coimbra em cima da mesa, horas a fio a preencher tabelas com dados. Entre documentos requisitados e respostas de mau estado, as buscas vão avançando.

Surgem-nos ao caminho, no caso deste fundo, cartas incluídas como prova judicial, obtidas das mais diversas maneiras: por apreensão direta no ato de prisão do réu, por intercetação do correio, por entrega voluntária de certo intermediário. Testemunhos banais do quotidiano, agradecimento de favores e confidências, estes escritos oferecem múltiplas possibilidades de análise da vida em sociedade.

 

Quem sabe se amanhã não existirão, novas partilhas, novas descobertas, novas pistas a seguir…

quando a História e a Linguística unem as mãos

Passo os meus dias diante da tela de um computador e, nem mesmo assim, me sinto menos aventureira. Geralmente, não estou nada mal acompanhada e ocupo-me com o que mais me dá prazer: lidar com manuscritos. A minha missão é conseguir identificar o maior número possível de cartas particulares dos séculos XVI a XIX. Esta demanda é partilhada com os meus colegas de projeto (uma equipa fantástica, by the way!).

Apesar da minha afinidade com os estudos centrados na língua portuguesa – uma área que me é particularmente cara, em particular no concernente à didática numa perspetiva diacrónica ou até mesmo sincrónica – o meu labor é especificamente orientado para as questões de ordem histórica.

Digitarq

Não constitui tarefa fácil – nada como um bom desafio para animar os dias! – e requer boas doses de criatividade na própria identificação de fundos e arquivos potencialmente relevantes. Dada a natureza e dimensão deste projeto, o qual se ocupa, essencialmente, de documentação remanescente em arquivos judiciais portugueses e espanhóis, a produtividade dos fundos tem sido um fator central, bem como a natureza das cartas.

Pode-se dizer que é uma prova de grande tenacidade, mas não há nada que pague aquele momento em que todo o esforço é premiado com mais um bom achado.

disponibilizamos os nossos recursos

No site do PS-FLY-CARDS disponibilizamos os ficheiros que permitem que a edição eletrónica das cartas da nossa base de dados seja possível: a folha de estilo (XSL), a definição de tipo de documento (servindo-nos de base a DTD utilizada pelo projeto DALF), todos os nossos ficheiros de cartas editadas em XML, todos os nossos ficheiros de cartas editadas facilmente legíveis em PDF, o manual de edição do nosso projeto. Vejam aqui:

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http://alfclul.clul.ul.pt/cards-fly/index.php?page=downloads

una aguja en un pajar

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La búsqueda de cartas puede convertirse en un trabajo minucioso…. Escondidas entre los folios de este monumental proceso, había 4 cartas esperando a ser descubiertas por el equipo de PS!!

onde tudo começa

A procura de cartas na Torre do Tombo, entre outros arquivos em Portugal e Espanha, é uma tarefa que exige conhecimento, paciência e determinação. Como já dissemos outras vezes, assemelha-se ao garimpo: passa-se por muitos materiais menos nobres antes de achar umas pepitas de ouro. A diferença em relação ao garimpo é que esta nossa atividade não estraga a paisagem :)

Assim se justifica esta alegria da Ana Rita, num email para o resto da equipa, num dos dias em que um tesouro lhe veio parar às mãos: “Dei hoje de caras com mais um processo da inquisição de Lisboa fértil em cartas privadas… [...] E sim, confirma-se, são umas 32, uma maioria esmagadora de cartas de amor! Trata-se do processo da freira Mariana da Coluna, acusada de feitiçaria. Sendo de Lisboa, claro está, encontra-se online. [...] Não resisto a partilhar convosco este feliz achado com o respetivo ficheiro-maravilha!” Dito assim, parece que foi fácil, ou por acaso. Não foi.

Aqui fica uma ilustração de alguns elementos do grupo nessas longas horas folheando processos. Quase sempre em silêncio,  naquela espécie de solenidade que nos merecem os contactos com a História em primeira mão.

Crédito: Mariline Alves/CM (março de 2013)

na Torre do Tombo 1

Equipa do centro de linguística da universidade de lisboa recupera cartas anteriores a 1900. Torre do tombo, Cidade Universitaria, Lisboa

na Torre do Tombo 3

dados, dados, dados!

Por azar, o Dia das Humanidades Digitais apanha-me em vésperas de congresso, enervada com o formato final da comunicação. A última inovação que introduzi foi a da imagem de fundo que o meu Prezi irá ter. A ideia é a de explicar num flash o que sentimos na equipa perante tanta carta que é preciso processar. Vai em inglês porque já agora aproveito para pedir sugestões de melhoramento do texto

…I chose the picture as a background image for my slides because we can see in it, simultaneously, the same attributes of the manuscripts I came here to comment: they are banal things, small in size, large in number, pretty natural, and shaped by time.

pedras-elisabete-cartaxo

‘Calhaus rolados’ by MEC

uma ponte entre TEI e E-Dictor

No Dia da Humanidades Digitais, como em quase todos os dias em que trabalho com as nossos ficheiros XML, movo-me entre etiquetas TEI e etiquetas E-Dictor.
O TEI é um ‘pacto’ académico que nos permite uma marcação de texto que é legível pelos browsers da Internet e simultaneamente fiel às convenções filológicas na edição de fontes primárias. Combinado com uma folha de estilo, conduz a edições digitais como as do site PS-Fly-Cards.
O E-Dictor é uma ferramenta que os colegas do Tycho Brahe desenvolveram e que permite usar o mesmo programa para a transcrição das fontes, a sua edição e a anotação POS. São etapas indispensáveis na preparação de um corpus linguístico para operações automáticas de busca, estatísticas múltiplas, anotação sintática.
Mas há um problema! Um XML de E-Dictor não está marcado com as mesmas etiquetas de um XML-TEI.
Solução: – o nosso colega Michel Généreux escreveu a nosso pedido — e autoriza obviamente a respetiva divulgação — um script PERL que converte ficheiros TEI em ficheiros E-Dictor. Vai a respetiva ligação no fim deste post. É preciso guardá-lo usando um editor de texto, e é preciso dar-lhe a extensão pl (neste caso, script.pl). Está pensado para fazer as seguintes operações:
1. Apagar o TEIHEADER e substituí-lo por um cabeçalho aceitável em E-Dictor.
2. Transformar o BODY do TEI num corpo de texto também aceitável em E-Dictor
3. Esconder todas as etiquetas de BODY do TEI, à exceção das que dizem respeito  à marcação de abreviaturas e ao respetivo desenvolvimento
N.B. As nossas abreviaturas são marcadas do seguinte modo, numa combinação dos elementos ABBR e EXPAN muito pouco ortodoxa, mas necessária para os nossos objetivos.
Ex: se o manuscrito tem “Sr.”, no XML TEI escrevemos <abbr>S<expan>enho</expan>r</abbr>
Para usar este script, basta guardá-lo na mesma pasta onde está o XML-TEI e escrever na linha de comandos esta ordem:
perl script.pl input.xml > output.xml
O ficheiro output.xml abre-se em E-Dictor e já vem com o reconhecimento de todas as expansões de abreviatura bem vermelhinas, como todos gostamos.
Para esclarecerem dúvidas, podem contactar qualquer membro do projeto Post Scriptum.
O script.pl está acessível neste endereço: http://alfclul.clul.ul.pt/cards-fly/files/script.txt.

a vida das palavras (3)

As nossas cartas têm permanecido guardadas como prova no seio de processos criminais ou da Inquisição – excelentes notícias do ponto de vista da sua conservação, pois de outro modo não teriam chegado até nós.

Um dos crimes a que muitas delas estão associadas é o de bigamia. Foi esse o pecado de, por exemplo, Domingas de Araújo. Dada a prolongada ausência do marido, António de Araújo, barbeiro, que emigrara para o Brasil havia quase vinte anos, em 1687 ela casou com Francisco Afonso, lavrador, ‘o Fidalgo’. Um padre, irmão do primeiro marido, veio a denunciá-la à Mesa da Inquisição, provando que este era vivo. Parte dessa prova consistia em cartas que António escreveu, dando conta das misérias que o afligiam na Bahia.

Outros casos de bigamia, porém, não envolviam longas ausências. Afonso Gonçalves, lavrador, natural da ilha Terceira e morador na ilha de Santa Maria, casou pela primeira vez com Maria Jácome, também natural da Terceira. Para poder casar-se com Catarina Faleira quando a primeira mulher ainda era viva, criou para si a personagem de Bartolomeu Fernandes, homem solteiro e natural do Porto, e apresentou mesmo certidões falsas. Acabaria por confessar-se culpado: foi condenado ao degredo para as galés por cinco anos e a ser publicamente açoitado. Já da prisão, em 1603, escreveu à primeira mulher, suplicando-lhe que intercedesse pela sua soltura.

Assim, além da preciosa informação sobre a língua portuguesa da época (a escrita destes autores é muito próxima do oral: às vezes quase podemos ouvi-los falar :) ), obtemos dados extraordinários sobre a vida e as emoções das pessoas envolvidas.

Então se as cartas são em série, incluindo as respostas dos que antes foram destinatários, podemos mesmo seguir as histórias pessoais como quem assiste a um folhetim. Com descrições detalhadas e, por vezes, reviravoltas surpreendentes.

Já me aconteceu sonhar com aquelas pessoas.