o papel e o computador – o manuscrito e a máquina

Damos alguns passos entre o que vemos no papel, no manuscrito, e o que transpomos para o computador, tentando em cada um deles fidelizar-nos com o que vemos no original para conseguirmos retratá-lo na máquina. Mais do que isso, tendo sempre em conta o papel, mas já só no computador, tentamos descrever e documentar o que vimos no original para garantir que sugerimos boas pistas de estudo, com a anotação necessária, para podermos passá-las a outros.

Há uma equipa que passa os seus dias no arquivo em pesquisa, procurando página a página o bem precioso que é a carta, transcrevendo-a de seguida com o editor de XML – lado a lado estão a mão que pegou na pena e a mão que transporta cada letra à máquina. Após o esforço de leitura pela completa edição e contextualização da carta, segue-se-lhes o pedido do facsímile: não damos nenhum passo em frente sem o original ou a sua representação. Outra parte da equipa revê, moderniza e traduz cada uma das cartas, fixando o texto para mais fácil pesquisa, e fá-lo a partir das duas fontes que lhe são disponibilizadas: o facsímile e a edição TEI-XML.

Depois desta fase, o documento final chega ao sítio: tem título, tem um resumo, autor e destinatário identificados, edição quási-paleográfica, modernização, tradução, palavras-chave (de História e Linguística), contextualização (interna e externa), facsímile disponível, lado a lado.

Isto são Humanidades Digitais, para mim.

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6 thoughts on “o papel e o computador – o manuscrito e a máquina

    • Mariana,
      deste o mote para um agradecimento muito especial e que muito bem vem a propósito neste Dia das Humanidades Digitais. Contudo, esse não pode ser para mim, que, qual Hermes moderno, apenas sirvo de intermediária entre um tesouro muito bem guardado num sótão de mais uma família e um grupo de trabalho, ‘guardador’ de cartas.
      O trabalho de pesquisa diária é também de grande contacto interpessoal e de humanização, que se agiganta quando os próprios autores estão ainda vivos. É com sorriso de menina que ouço as histórias tristes, contadas por gente alegre, de uma vida que fica ‘intemporalizada’ nestas cartas. É com nostalgia que eu própria vejo a doce alegria com que uma mãe e um pai falam da distância e do medo que as cartas encurtaram e amenizaram, em períodos histórica e socialmente tão amargos para os portugueses, o da Guerra Colonial e o da emigração (séc. XX). É com grande magia que vejo saltar das mãos da filha e da neta, cheias de cartas e aerogramas, as palavras de partilha e de conforto dos pais e avós.
      Na algibeira, trago as cartas e uma grande dose de esperança no futuro, enfeitiçada pela força de duas gerações, tanto diferentes quanto fortes.
      A todos quantos partilharam connosco estas memórias e estas vidas, aqui fica um grande agradecimento.

      • Ainda bem que falas nisso, Catarina. O encontrar das cartas de século XX não é em arquivos, não é na pesquisa pelos processos judiciais/inquisitoriais, mas sim, tal como para encontrar as cartas dos séculos anteriores, viver vidas de pessoas e saber as suas histórias.

        Nestas épocas mais recentes, temos o discurso vivo, direto e presente, o que muda muito a nossa perspetiva sobre o que lemos na correspondência.

        O agradecimento é para eles, sim e principalmente, mas muito para pessoas como tu, que ajudam todos os dias a aumentar o arquivo, que também é de memórias, que estamos a constituir.

        ;)

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