e amanhã…

O menu do dia já está em vista: mais uma deslocação ao Arquivo Nacional da Torre do Tombo, uns tantos processos da Inquisição de Coimbra em cima da mesa, horas a fio a preencher tabelas com dados. Entre documentos requisitados e respostas de mau estado, as buscas vão avançando.

Surgem-nos ao caminho, no caso deste fundo, cartas incluídas como prova judicial, obtidas das mais diversas maneiras: por apreensão direta no ato de prisão do réu, por intercetação do correio, por entrega voluntária de certo intermediário. Testemunhos banais do quotidiano, agradecimento de favores e confidências, estes escritos oferecem múltiplas possibilidades de análise da vida em sociedade.

 

Quem sabe se amanhã não existirão, novas partilhas, novas descobertas, novas pistas a seguir…

quando a História e a Linguística unem as mãos

Passo os meus dias diante da tela de um computador e, nem mesmo assim, me sinto menos aventureira. Geralmente, não estou nada mal acompanhada e ocupo-me com o que mais me dá prazer: lidar com manuscritos. A minha missão é conseguir identificar o maior número possível de cartas particulares dos séculos XVI a XIX. Esta demanda é partilhada com os meus colegas de projeto (uma equipa fantástica, by the way!).

Apesar da minha afinidade com os estudos centrados na língua portuguesa – uma área que me é particularmente cara, em particular no concernente à didática numa perspetiva diacrónica ou até mesmo sincrónica – o meu labor é especificamente orientado para as questões de ordem histórica.

Digitarq

Não constitui tarefa fácil – nada como um bom desafio para animar os dias! – e requer boas doses de criatividade na própria identificação de fundos e arquivos potencialmente relevantes. Dada a natureza e dimensão deste projeto, o qual se ocupa, essencialmente, de documentação remanescente em arquivos judiciais portugueses e espanhóis, a produtividade dos fundos tem sido um fator central, bem como a natureza das cartas.

Pode-se dizer que é uma prova de grande tenacidade, mas não há nada que pague aquele momento em que todo o esforço é premiado com mais um bom achado.

a vida das palavras (1)

No nosso baú/pasta zipada dos documentos em espera estão ainda centenas de cartas de amor, de amizade, de ameaça. Algumas juntam tudo isto em linhas consecutivas, e às vezes na mesma frase.
Caligrafia difícil e ortografia deveras… uhm… criativa. Papel dobrado, manchado, danificado… Mas o escrutínio dos olhares em verdadeiro trabalho de equipa e o labor de alguns pares de mãos, usando dias a fio as mais adequadas ferramentas digitais para registar cada palavra intencional e cada sequência rasurada, cada fôlego da pena e cada hesitação, farão emergir de novo a substância que o tempo escondeu. E, lentamente, como quando vemos uma certa imagem desenhar-se num papel fotográfico mergulhado em líquido de revelação, percebemos como essa substância nos é tão familiar.

“Senhor Roberto Inácio,
Não tenho dinheiro nenhum, nem quem mo empreste. Vossa Senhoria é meu amigo, é meu Coronel, e ou por um título ou por outro é quem deve remediar esta falta. […]
De seu súbdito e amigo,
Conde de Sabugal
Viena, 4 de agosto de 1809”

É verdade, há coisas que nunca mudam.